12.

um peixe negro e sem escamas, vindo do abismo do meio
(pois que no abismo profundo os seres transparecem)
de olhos brilhantes
amarelo fogo
num galope certeiro (marinho que é)
cavalo
atravessou meu dia
desde então, meus olhos simples
transitam
entre claros e escuros tons do mesmo azul  incerto
e água doce (cristalino lago)  virou mar de sal
que inunda
minha face de areia e pedra, sob este céu vermelho antigo
reflexo
dos seus cinqüenta e quatro sóis que rumam

em direção à Hidra.

11.

na parede branca do meu quarto moram dois cavalos. há anos que me olham com seus olhos mansos e opacos.

rédeas esticadas, empoeiradas , não os afetam. as folhas miúdas no alto relevo, não morrem.

lembro das mão fortes do meu avô modelando o barro. sinto o cheiro da argila, dos panos molhados, da officina.

lembro dos arames, dos velhos cinzéis, das espátulas. vejo claramente o esboço desenhado no papel canson.

relincham de saudades os cavalos de terra da minha infância. me agarro às suas crinas, deixo que me levem ao sabor do vento.

10.

 

quem me vê cantar, não sabe – do tom grave do meu olhar sobre a vida. das aflições agudas, dos semitons cromáticos – não sabe. do cansaço vocal, da dissonância extrema, da rouquidão antiga. das asperezas da garganta, do gengibre mascado, do mel – não sabe. sabe só, da melodia que escapa, pela fresta do verso – semi-aberta janela – única. onde tudo mais é silêncio.

9.

que faz agora com esta brisa tardia, que chegou de repente e soprou seus cabelos que querem se enlaçar. ela contou segredos aos seus dedos – agora em busca da trama colorida de outras mãos. brisa quente, trouxe calores à sua pele branca – que insiste em viver de rubores. brisa suave, tocou seus olhos, agora madrepérolas, translúcidas e ávidas – retinas de sonhar. e ao seu coração, revelou os mistérios, do renascer das cinzas – pássaro enlouquecido que só pensa em voar.

8.

abro meus olhos e as janelas do dia . abrirei portas . café com pão sagrados. respiro fundo . pé na estrada . já de saída três vira-latas na festa da rua . é tudo muito azul . muito verde . a liberdade plena – há que celebrar . sinto pena do meu cão atrás das grades . sigo em frente.

um sapo .  estatelado no asfalto . seco – vira pedra . um pássaro de peito amarelo e mudo – ainda é um pássaro . um bem-te-vi cinzento quase arrebenta . garganta e arame farpado.

um guard-rail metálico . que violenta a mata . corre . ao lado da cicatriz de concreto . mais um passo . em pencas . a natureza – mãe . se vinga: flores vermelhas que se atiram . suavizando cinzas e metais.

olho a montanha . velho chalé resiste – quase encoberto por árvores imensas. fumaça… chego ao antigo portal que leva a nada . chegadas e partidas são só pedaços . o mesmo trem – se houvesse . dou meia volta .

amanha já não sei . ninguém sabe amanhã . e a tarde quem sabe? lembro-me do sonho da noite . apesar da lembrança que engoliu a saudade que engoliu a tristeza que quase me engoliu . a manhã está clara . faz sol e ainda é cedo . eu – outra vez no caminho.